sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Diário de Lia - Rozilda Euzebio Costa


O Diário de Lia


                        I Capitulo

E
nquanto caminhava pelo passeio do extenso bosque, Lia Fernandes fazia uma intensa viagem ao seu passado, revivendo as recordações de sua adolescência. Lembrava-se de cada detalhe, de cada emoção experimentada, e dos tantos sonhos que alimentara em sua juventude. Vinha-lhe a memória as lembranças dos momentos felizes, e das decepções que tantas vezes a fizeram chorar. Recordava-se com clareza dos amigos, das vivências e sensações que experimentara no auge de sua mocidade. Quanta disposição tinha em seu corpo! Poderia passar a noite em claro, brincando com os amigos, que no dia seguinte seu corpo continuava com a mesma disposição. Não sentia tanto os efeitos de suas estripulias de juventude. Agora Lia estava vivendo apenas de suas recordações, pois já não tinha mais força física pra viver aventuras. Ela estava com setenta e nove anos de idade, o corpo já não obedecia aos comandos de sua mente, já contabilizara alguns quilos indesejáveis pelo corpo. Seus cabelos se pareciam com uma grande bola de algodão em sua cabeça, de tão brancos que já estavam.
Se havia uma coisa de que Lia não gostava, era de se olhar no espelho, pois quando o fazia sentia vontade de chorar, ou mesmo, de quebra-lo! Odiava-o, porque ele mostrava o que ela não queria aceitar. Os anos haviam maltratado sua aparência, mas não tinha envelhecido sua mente e nem apagado suas memórias.
Tudo que Lia mais desejava era ter o poder de fazer o tempo voltar, para reviver momentos felizes que havia provado em seu tempo de juventude. Desejava concluir os momentos que ficaram sem a chance de serem concretizados. No entanto, sabia que isso era realmente impossível e fora de cogitação. Não poderia fazer voltar o tempo. Esta era uma grande e triste realidade para ela.
Lia estranhava-se naquele corpo, era fato, pois sua mente, não havia envelhecido. Seu espírito era de uma jovem desejosa de viver todo o sonho possível de uma vida de aventuras. Gostava de estar entre os jovens e se sentia como um deles. Via suas amigas frequentarem os grupos da terceira idade e não sentia nenhum desejo de estar com elas. Observava que elas estavam conscientes da condição de idosas, mas para ela, esta palavra lhe soava estranha aos ouvidos. Não admitia ser chamada de “idosa”.
O tempo é sensível conosco quando não nos deixa ver o processo de envelhecimento de uma só vez. Isso seria trágico demais para os nossos sentidos, e principalmente, para os nossos sonhos, porque é fato de que a mente não envelhece para os sonhos, mas a nossa juventude passa, e nós continuamos a idealizar projetos como se ainda tivéssemos um corpo jovem e forte. A mão do tempo é suave, vai levando de leve a juventude do nosso corpo até chegar aquele momento que devemos voltar à origem. Mas eu me pergunto: porque a mente não envelhece? Porque continuamos a sonhar em realizar certas coisas que somente os jovens possuem condições físicas para realiza-los? Não seria porque a mente não pode ser tocada e nem alterada pelo tempo?! Quem sabe o que acontece com as programações da nossa mente? Nas mãos de quem está no controle da nossa mente? Será que tem algum ser superior a comandar todos os sistemas da nossa mente? Quando a mente não guarda suas memórias e não permanece em constante atividade saudável em alguns indivíduos, não é devido à sua idade, mas é devido a problemas com o funcionamento ativo do cérebro. Porque temos grandes exemplos de indivíduos com idade física avançada, mas em constante processo de criação, e de idealizações incríveis para que outros indivíduos, com sua fisicalidade mais jovem e mais forte, realizem tais construções.
No entanto, mesmo a mente permanecendo ativa, o envelhecer do corpo é um processo inevitável. E podemos ver que ninguém gostaria de perder os vigores da juventude! Nós olhamos para o espelho e não reconhecemos aquela pessoa do outro lado. Vemos rugas por toda parte, olhos e lábios caídos, pescoço enrugado, manchas na pele e cabelos brancos. Porém, a mente não aceita este corpo que se apresenta envelhecido no espelho! E se ela não aceita, não o reconhece como sendo seu, isso só me leva a acreditar em uma coisa como sendo certa: a mente em definitivo, nunca envelhece! O espírito não envelhece! E permanece em plena atividade.

***
Depois de caminhar por alguns minutos, Lia sentou-se embaixo de uma frondosa árvore. Seu filho Thiago a deixara ali, sozinha, a pedido dela própria. Por algum tempo manteve o olhar distante, como quem tivesse abandonado o corpo naquele lugar e viajado em pensamentos a um tempo muito distante.
Depois de algumas dezenas de minutos, começou a sentir dor em um dos joelhos, mas não desejava ir embora ainda. Thiago não demorou muito, mesmo que ela o pedisse para ficar um pouco mais, ele não a deixava só por muito tempo. Estava sempre a observa-la, mesmo que de longe, de modo que ela não percebesse a sua presença. Thiago era um bom filho e não gostava de causar nenhum tipo de mágoa à mãe.
Quando Thiago se aproximou da mãe, percebeu que ela estava com o olhar perdido. Chegou mais perto dela e carinhosamente a chamou:
- Mamãe?! Já está na hora de voltarmos para casa. Vamos!
- Já veio me buscar, meu filho? Estou aqui há tão pouco tempo! – disse ela, como se ainda desejasse ficar naquele bosque por mais tempo.
- Ora mamãe! Você já não tem idade pra ficar fora de casa por muito tempo! E ainda mais sozinha! Além do que, eu preciso ir para o escritório trabalhar. Já são quase nove horas da manhã! Estou cheio de compromissos para hoje. Vamos para casa? – Thiago a chamou mais uma vez.
- Sabe que eu não gosto que me chamem de velha! – disse ela, mostrando aborrecimento, pela forma com que o filho lhe mencionou a idade, como uma das preocupações de ficar fora de casa muito tempo.
- Não estou chamando-a de velha mamãe! Só quero dizer que a senhora já não tem tanta disposição física. Além do mais o seu médico lhe recomendou repouso, lembra-se?  – disse ele.
- Ah esses médicos! Eles estão sempre a inventar alguma coisa. Eles querem nos enterrar vivos meu filho! Sinto-me muito bem! – disse ela, já tentando se levantar, mas sentiu seu corpo pesar e acabou se sentando novamente.
- Está vendo! Os médicos não inventam mamãe, eles estudam para reconhecer os males que afligem o nosso corpo. Deixe-me ajudá-la mamãe! – Thiago pegou nos braços de sua mãe, para ajuda-la a se levantar.
Lia entrou no carro e permaneceu em silêncio até chegar em casa. Thiago estacionou o veículo e lhe ajudou a descer. Depois se despediu dela e foi para o seu trabalho.
Quando ficou viúva, Lia foi morar com seu filho Thiago, o mais velho dos cinco filhos que tivera de seu casamento. Ele era o que mais se parecia com o pai. Embora não desejando ter mais preferência por algum deles, ela não conseguia disfarçar para os outros a sua predileção por Thiago, pois ele era o único em quem ela confiava. Thiago era muito humilde e responsável, zelava pelo bem estar da mãe. Preocupava-se com sua saúde. Os outros quatro filhos, duas mulheres e dois homens, moravam em outras cidades e tinham suas próprias vidas sobre controle. Nenhum deles se preocupava se ela estava bem ou não. Apenas Thiago tinha essa preocupação, tanto que, ao ficar noivo já comunicou a sua futura esposa que ela deveria conviver com sua mãe, pois a mãe era muito importante em sua vida e ele jamais a abandonaria. Já Adriana, esposa de Thiago, por outro lado, se deu muito bem com a sogra. Eram como se fossem mãe e filha.
Ao chegar em casa, Lia entrou para o seu quarto e trancou a porta, não queria ser incomodada. Sentiu vontade de rever o diário que escrevera em sua juventude. Guardava-o em uma pequena caixa, a qual mantinha sempre trancada a cadeado, para que ninguém pudesse colocar as mãos nele, e vir a ler alguma coisa de seu passado.
Já com o diário em mãos, Lia recostou-se na cabeceira da cama, e abrindo-o, deparou-se com uma pétala de rosa vermelha ressecada pelo tempo. Olhou para aquela pétala e recordou-se de quando a colocou ali. Começou a ler as palavras que foram escritas por ela própria naquele diário, as quais descreviam seus anseios, seus sonhos de adolescente. Era também naquele diário que Lia havia registrado as emoções de quando conheceu o grande amor de sua vida, e os momentos que vivera ao lado dele.
Enquanto relia seu diário, as cenas lhe passavam pela mente como um filme. Lembrou-se vividamente de sua juventude, daquela fase que nunca mais voltaria, mas que ainda permanecia viva em suas memórias...

***
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