O Diário de Lia
I Capitulo
E
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nquanto caminhava pelo passeio do extenso bosque, Lia Fernandes
fazia uma intensa viagem ao seu passado, revivendo as recordações de sua
adolescência. Lembrava-se de cada detalhe, de cada emoção experimentada, e dos
tantos sonhos que alimentara em sua juventude. Vinha-lhe a memória as
lembranças dos momentos felizes, e das decepções que tantas vezes a fizeram
chorar. Recordava-se com clareza dos amigos, das vivências e sensações que
experimentara no auge de sua mocidade. Quanta disposição tinha em
seu corpo! Poderia passar a noite em claro, brincando com os amigos, que no dia
seguinte seu corpo continuava com a mesma disposição. Não sentia tanto os
efeitos de suas estripulias de juventude. Agora Lia estava vivendo
apenas de suas recordações, pois já não tinha mais força física pra viver
aventuras. Ela estava com setenta e nove anos de idade, o corpo já não obedecia
aos comandos de sua mente, já contabilizara alguns quilos indesejáveis pelo
corpo. Seus cabelos se pareciam com uma grande bola de algodão em sua cabeça,
de tão brancos que já estavam.
Se havia uma coisa de que Lia não gostava,
era de se olhar no espelho, pois quando o fazia sentia vontade de chorar, ou
mesmo, de quebra-lo! Odiava-o, porque ele mostrava o que ela não queria
aceitar. Os anos haviam maltratado sua aparência, mas não tinha envelhecido sua
mente e nem apagado suas memórias.
Tudo que Lia mais desejava era ter o poder de
fazer o tempo voltar, para reviver momentos felizes que havia provado em seu
tempo de juventude. Desejava concluir os momentos que ficaram sem a chance de
serem concretizados. No entanto, sabia que isso era realmente impossível e fora
de cogitação. Não poderia fazer voltar o tempo. Esta era uma grande e triste
realidade para ela.
Lia estranhava-se naquele corpo, era fato,
pois sua mente, não havia envelhecido. Seu espírito era de uma jovem desejosa
de viver todo o sonho possível de uma vida de aventuras. Gostava de estar entre
os jovens e se sentia como um deles. Via suas amigas frequentarem os grupos da
terceira idade e não sentia nenhum desejo de estar com elas. Observava que elas
estavam conscientes da condição de idosas, mas para ela, esta palavra lhe soava
estranha aos ouvidos. Não admitia ser chamada de “idosa”.
O tempo é sensível conosco quando não nos
deixa ver o processo de envelhecimento de uma só vez. Isso seria trágico demais
para os nossos sentidos, e principalmente, para os nossos sonhos, porque é fato
de que a mente não envelhece para os sonhos, mas a nossa juventude passa, e nós
continuamos a idealizar projetos como se ainda tivéssemos um corpo jovem e
forte. A mão do tempo é suave, vai levando de leve a juventude do nosso corpo
até chegar aquele momento que devemos voltar à origem. Mas eu me pergunto:
porque a mente não envelhece? Porque continuamos a sonhar em realizar certas
coisas que somente os jovens possuem condições físicas para realiza-los? Não
seria porque a mente não pode ser tocada e nem alterada pelo tempo?! Quem sabe
o que acontece com as programações da nossa mente? Nas mãos de quem está no
controle da nossa mente? Será que tem algum ser superior a comandar todos os
sistemas da nossa mente? Quando a mente não guarda suas memórias e não
permanece em constante atividade saudável em alguns indivíduos, não é devido à
sua idade, mas é devido a problemas com o funcionamento ativo do cérebro.
Porque temos grandes exemplos de indivíduos com idade física avançada, mas em
constante processo de criação, e de idealizações incríveis para que outros
indivíduos, com sua fisicalidade mais jovem e mais forte, realizem tais construções.
No entanto, mesmo a mente permanecendo ativa,
o envelhecer do corpo é um processo inevitável. E podemos ver que ninguém
gostaria de perder os vigores da juventude! Nós olhamos para o espelho e não
reconhecemos aquela pessoa do outro lado. Vemos rugas por toda parte, olhos e lábios
caídos, pescoço enrugado, manchas na pele e cabelos brancos. Porém, a mente não
aceita este corpo que se apresenta envelhecido no espelho! E se ela não aceita,
não o reconhece como sendo seu, isso só me leva a acreditar em uma coisa como
sendo certa: a mente em definitivo, nunca envelhece! O espírito não envelhece!
E permanece em plena atividade.
***
Depois de caminhar por alguns minutos, Lia
sentou-se embaixo de uma frondosa árvore. Seu filho Thiago a deixara ali,
sozinha, a pedido dela própria. Por algum tempo manteve o olhar distante, como
quem tivesse abandonado o corpo naquele lugar e viajado em pensamentos a um
tempo muito distante.
Depois de algumas dezenas de minutos, começou
a sentir dor em um dos joelhos, mas não desejava ir embora ainda. Thiago não
demorou muito, mesmo que ela o pedisse para ficar um pouco mais, ele não a
deixava só por muito tempo. Estava sempre a observa-la, mesmo que de longe, de
modo que ela não percebesse a sua presença. Thiago era um bom filho e não
gostava de causar nenhum tipo de mágoa à mãe.
Quando Thiago se aproximou da mãe, percebeu
que ela estava com o olhar perdido. Chegou mais perto dela e carinhosamente a
chamou:
- Mamãe?! Já está na hora de
voltarmos para casa. Vamos!
- Já veio me buscar, meu filho?
Estou aqui há tão pouco tempo! – disse ela, como se ainda
desejasse ficar naquele bosque por mais tempo.
- Ora mamãe! Você já não tem
idade pra ficar fora de casa por muito tempo! E ainda mais sozinha! Além do
que, eu preciso ir para o escritório trabalhar. Já são quase nove horas da
manhã! Estou cheio de compromissos para hoje. Vamos para casa? – Thiago a chamou mais uma vez.
- Sabe que eu
não gosto que me chamem de velha! – disse ela, mostrando aborrecimento, pela forma com que o filho
lhe mencionou a idade, como uma das preocupações de ficar fora de casa muito
tempo.
- Não estou chamando-a de velha
mamãe! Só quero dizer que a senhora já não tem tanta disposição física. Além do
mais o seu médico lhe recomendou repouso, lembra-se? – disse ele.
- Ah esses médicos! Eles estão
sempre a inventar alguma coisa. Eles querem nos enterrar vivos meu filho!
Sinto-me muito bem! – disse ela, já tentando se levantar, mas sentiu seu corpo pesar e
acabou se sentando novamente.
- Está vendo! Os médicos não inventam
mamãe, eles estudam para reconhecer os males que afligem o nosso corpo. Deixe-me
ajudá-la mamãe! – Thiago pegou nos braços de
sua mãe, para ajuda-la a se levantar.
Lia entrou no carro e permaneceu em silêncio
até chegar em casa. Thiago estacionou o veículo e lhe ajudou a descer. Depois
se despediu dela e foi para o seu trabalho.
Quando ficou viúva, Lia foi morar com seu
filho Thiago, o mais velho dos cinco filhos que tivera de seu casamento. Ele
era o que mais se parecia com o pai. Embora não desejando ter mais preferência
por algum deles, ela não conseguia disfarçar para os outros a sua predileção
por Thiago, pois ele era o único em quem ela confiava. Thiago era muito humilde
e responsável, zelava pelo bem estar da mãe. Preocupava-se com sua saúde. Os
outros quatro filhos, duas mulheres e dois homens, moravam em outras cidades e
tinham suas próprias vidas sobre controle. Nenhum deles se preocupava se ela
estava bem ou não. Apenas Thiago tinha essa preocupação, tanto que, ao ficar
noivo já comunicou a sua futura esposa que ela deveria conviver com sua mãe,
pois a mãe era muito importante em sua vida e ele jamais a abandonaria. Já Adriana,
esposa de Thiago, por outro lado, se deu muito bem com a sogra. Eram como se
fossem mãe e filha.
Ao chegar em casa, Lia entrou para o seu
quarto e trancou a porta, não queria ser incomodada. Sentiu vontade de rever o
diário que escrevera em sua juventude. Guardava-o em uma pequena caixa, a qual
mantinha sempre trancada a cadeado, para que ninguém pudesse colocar as mãos
nele, e vir a ler alguma coisa de seu passado.
Já com o diário em mãos, Lia recostou-se na
cabeceira da cama, e abrindo-o, deparou-se com uma pétala de rosa vermelha ressecada
pelo tempo. Olhou para aquela pétala e recordou-se de quando a colocou ali. Começou
a ler as palavras que foram escritas por ela própria naquele diário, as quais descreviam
seus anseios, seus sonhos de adolescente. Era também naquele diário que Lia
havia registrado as emoções de quando conheceu o grande amor de sua vida, e os
momentos que vivera ao lado dele.
Enquanto relia seu diário, as cenas lhe
passavam pela mente como um filme. Lembrou-se vividamente de sua juventude,
daquela fase que nunca mais voltaria, mas que ainda permanecia viva em suas
memórias...
***
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